domingo, junho 03, 2007
sábado, junho 02, 2007
Comentário às eleições municipais no meu povo
Rosalinda
Rosalinda, se tu fores à praia, se tu fores ver o mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar.
A branca areia de ontem está cheínha de alcatrão.
As dunas de vento batidas são de plástico e carvão,
e cheiram mal como avenidas, vieram para aqui fugidas a lama, a putrefacção.
As aves já voam feridas, e outras caem ao chão.
Mas na verdade, Rosalinda, nas fábricas que ali vês
o operário respira ainda, envenenado, a desmaiar, o que mais há desta aridez.
Pois os que mandam no mundo só vivem querendo ganhar,
mesmo matando aquele que morrendo vive a trabalhar.
Tem cuidado, Rosalinda, se tu fores à praia, se tu fores ver o mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar.
E em Ferrel, lá para Peniche, vão fazer uma Central
que para alguns é nuclear, mas para muitos é mortal.
Os peixes hão-de vir à mão, um doente, outro sem vida, não tem vida o pescador.
Morre o sável e o salmão, "Isto é civilização", assim falou um senhor.
Tem cuidado, Rosalinda, se tu fores à praia, se tu fores ver o mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar.
[Fausto, Madrugada dos Trapeiros, (1978)]
Recomendo escutar a canção cá.
Etiquetas: Cosmopolítica, Galiza
quarta-feira, maio 30, 2007
Os melhores romances em língua galega
1º.- Votar-se-á por dez títulos. Devem estar escritos em galego (é válida qualquer variante normativa) e publicados por uma editorial galega. Pode-se repetir autor na lista de dez títulos. Pode-se votar por livros esgotados ou descatalogados (será então melhor citar os dados de publicação do romance: editorial e data de edição).
Os relatos breves, que pertençam a um livro de relatos não serão elegíveis, mais sim os romances curtos. A extensão das obras elegíveis deverá superar as 30 páginas na sua forma publicada.
2º.- Uma única votação por blogueiro ou blogueira.
3º.- A lista de dez títulos estará ordeada por orde de preferência. O primeiro romance de cada lista terá 10 pontos, o segundo 9 pontos, o terceiro 8 e assim de jeito sucessivo até 1 ponto pelo último romance.
4º.- As votações fechar-se-ão no praço de 45 dias a contar desde o seguinte ao da publicação das presentes bases em Polvo à feira. Por tanto, o derradeiro dia de votação será o 15 de julho de 2007.
5º.- As votações enviar-se-ão a: Klingsor0@gmail.com, ou bem como resposta a esta entrada de Polvo à feira. Deve-se incluir um nome/alias, um correio electrónico de contacto ou uma direcção de internet da autoria do votante (página pessoal, página de myspace, orkut ou blogue) a efeitos de evitar que uma pessoa vote repetidamente. Nunca se fará uso de estes dados, salvo que o próprio interessado requira algum tipo de comunicação. As votações que não cumpram com estes requisitos não serão contadas.
6º.- A lista definitiva publicará-se em Polvo à feira antes do fim do mês de julho de 2007.
7º.- Considerar-se-ão as sugestões que os blogueiros participantes desejem enviar para a modificação de qualquer aspecto destas bases. As que suponham uma melhora real das mesmas serão adoptadas de jeito imediato.
A votar!
Etiquetas: Curiosidades, Galiza, Letras livres
segunda-feira, maio 28, 2007
100 romances em espanhol (e algum menos em galego)
2.- La fiesta del Chivo, de Mario Vargas Llosa, Perú, 2000.
3.- Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño, Chile, 1998.
4.- 2666, de Roberto Bolaño, Chile, 2004.
5.- Noticias del imperio, de Fernando del Paso, México, 1987.
6.- Corazón tan blanco, de Javier Marías, España, 1992.
7.- Bartleby y Compañía, de Enrique Vila-Matas, España, 2000.
8.- Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, Argentina, 1995.
9.- Mañana en la batalla piensa en mí, de Javier Marías, España, 1994.
10.- El desbarrancadero, de Fernando Vallejo, Colombia, 2001.
11.- La virgen de los sicarios, de Fernando Vallejo, Colombia, 1994.
12.- El entenado, de Juan José Saer, Argentina, 1983.
13.- Soldados de Salamina, de Javier Cercas, España, 2001.
14.- Estrella distante, de Roberto Bolaño, Chile, 1996.
15.- Paisaje después de la batalla, de Juan Goytisolo, España, 1982.
16.- La ciudad de los prodigios, de Eduardo Mendoza, España, 1986.
17.- El jinete polaco, de Antonio Muñoz Molina, España, 1991.
18.- El testigo, de Juan Villoro, México, 2004.
19.- Salón de belleza, de Mario Bellatin, México, 2000.
20.- Cuando ya no importe, de Juan Carlos Onetti, Uruguay, 1993.
21.- La tejedora de coronas, de Germán Espinosa, Colombia, 1982.
22.- El paraíso en la otra esquina, de Mario Vargas Llosa, Perú, 2003.
23.- Cae la noche tropical, de Manuel Puig, Argentina, 1988.
24.- Doctor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, España, 2006.
25.- Herrumbrosas lanzas, de Juan Benet, España, 1983.
26.- Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero, de Álvaro Mutis, Colombia, 1993.
27.- El invierno en Lisboa, de Antonio Muñoz Molina, España, 1987.
28.- Verdes valles, colinas rojas, de Ramiro Pinilla, España, 2005.
29.- Mal de amores, de Ángeles Mastretta, México, 1996.
30.- Donde las mujeres, de Álvaro Pombo, España, 1996.
31.- El pasado, de Alan Pauls, Argentina, 2003.
32.- El rastro, de Jorge Gómez Jiménez, Venezuela, 1993.
33.- Santo oficio de la memoria, de Mempo Giardinelli, Argentina, 1991.
34.- Los años con Laura Díaz, de Carlos Fuentes, México, 1999.
35.- Plenilunio, de Antonio Muñoz Molina, España, 1997.
36.- Todas las almas, de Javier Marías, España, 1989.
37.- Cartas cruzadas, de Darío Jaramillo, Colombia, 1995.
38.- La casa del padre, de Justo Navarro, España, 1994.
39.- La visita en el tiempo, de Arturo Uslar Pietri, Venezuela, 1990.
40.- La historia de Horacio, de Tomás González, Colombia, 2000.
41.- La grande, de Juan José Saer, Argentina, 2005.
42.- El arte de la fuga, de Sergio Pitol, México, 1996.
43.- La velocidad de la luz, de Javier Cercas, España, 2005.
44.- Olvidado rey Gudú, de Ana María Matute, España, 1997.
45.- La gesta del marrano, de Marco Aguinis, Argentina, 1991.
46.- Un viejo que leía novelas de amor, de Luis Sepúlveda, Chile, 1989.
47.- Plata quemada, de Ricardo Piglia, Argentina, 1997.
48.- El vuelo de la reina, de Tomás Eloy Martínez, Argentina, 2002.
49.- Diablo guardián, de Xavier Velasco, México, 2003.
50.- Igur Neblí, de Miquel de Palol, España, 1994.
51.- La nieve del almirante, de Álvaro Mutis, Colombia, 1986.
52.- Vigilia del almirante, de Augusto Roa Bastos, Paraguay, 1992.
53.- Un campeón desparejo, de Adolfo Bioy Casares, Argentina, 1993.
54.- Los pichiciegos, de Rodolfo Fogwill, Argentina, 1993.
55.- La burla del tiempo, de Mauricio Electorat, Chile, 2004.
56.- Una novela china, de César Aira, Argentina, 1987.
57.- El inútil de la familia, de Jorge Edwards, Chile, 2004.
58.- Lumperica, de Diamela Eltit, Chile, 1983.
59.- La otra mano de Lepanto, de Carmen Boullosa, México, 2005.
60.- En estado de memoria, de Tununa Mercado, Argentina, 1990.
61.- Veinte años y un día, de Jorge Semprún, España, 2003.
62.- Ladrón de lunas, de Isaac Montero, España, 1999.
63.- La cuadratura del círculo, de Álvaro Pombo, España, 1999.
64.- No me esperen en abril, de Alfredo Bryce Echenique, Perú, 1995.
65.- Luna Caliente, de Mempo Giardinelli, Argentina, 1983.
66.- Una sombra ya pronto serás, de Osvaldo Soriano, Argentina, 1990.
67.- El cuarto mundo, de Diamela Eltit, Chile, 1988.
68.- La silla del Águila, de Carlos Fuentes, México, 2003.
69.- Temblor, de Rosa Montero, España, 1990.
70.- Historia del silencio, de Pedro Zarraluki, España, 1995.
71.- Los fantasmas, de César Aira, Argentina, 1990.
72.- Angosta, de Héctor Abad Faciolince, Colombia, 2003.
73.- La muerte como efecto secundario, de Ana María Shua, Argentina, 1997.
74.- La orilla oscura, de José María Merino, España, 1985.
75.- La vida exagerada de Martín Romaña, de Alfredo Bryce Echenique, Perú, 1981.
76.- Sin remedio, de Antonio Caballero, Colombia, 1984.
77.- El tiempo de las mujeres, de Ignacio Martínez de Pisón, España, 2003.
78.- Al morir Don Quijote, de Andrés Trapiello, España, 2005.
79.- Glosa, de Juan José Saer, Argentina, 1986.
80.- Crónica de un iniciado, de Abelardo Castillo, Argentina, 1991.
81.- El traductor, de Salvador Benesdra, Argentina, 2002.
82.- Cumpleaños, de César Aira, Argentina, 2001.
83.- La sexta lámpara, de Pablo de Santis, Argentina, 2005.
84.- El embrujo de Shangai, de Juan Marsé, España, 1993.
85.- El maestro de esgrima, de Arturo Pérez Reverte, España, 1988.
86.- Carreteras secundarias, de Ignacio Martínez de Pisón, España, 1996.
87.- Rosario Tijeras, de Jorge Franco, Colombia, 1999.
88.- La sombra del viento, de Carlos Ruiz Zafón, España, 2001.
89.- Camino a la perdición, de Luis Mateo Díez, España, 1995.
90.- A sus plantas rendido un león, de Osvaldo Soriano, Argentina, 1988.
91.- Memorias de mis putas tristes, de Gabriel García Márquez, Colombia, 2005.
92.- Autómata, de Adolfo García Ortega, España, 2006.
93.- Del amor y otros demonios, de Gabriel García Márquez, Colombia, 1994.
94.- Ella cantaba boleros, de Guillermo Cabrera Infante, Cuba, 1996.
95.- La novela luminosa, de Mario Levrero, Uruguay, 2005.
96.- La guerra de Galio, de Héctor Aguilar Camín, Chile, 1994.
97.- Arráncame la vida, de Ángeles Mastreta, México, 1998.
98.- Arturo, la estrella más brillante, de Reinaldo Arenas, Cuba, 1984.
99.- La orilla africana, de Rodrigo Rey Rosa, Guatemala, 1999.
100.-Los vigilantes, de Diamela Eltit, Chile, 1994.
Esta lista contiem as que, de acordo com 81 especialistas, são os melhores romances em castelhano publicados desde 1982. Foram eleitos este ano por iniciativa da revista colombiana Semana, que dirigiu uma pesquisa a escritores, editores, críticos literários para que votaram pelos melhores romances em espanhol editados desde que existe o semanário. Ao mesmo tempo, a iniciativa unia-se aos festejos pelo quadragésimo aniversário da aparição de Cien años de soledad e a celebração e Medellín e Cartagena de Indias do XIII Congreso de las Academias de la lengua e o IV Congreso internacional de la lengua española.
Estas listas são sempre polémicas: que se algum dos que está não debera de estar, que se algum dos ausentes debera de estar, que se a ordem não é a adecuada, que se semelha que se impôs o critério do políticamente correcto… Se calhar é por isso que a Semana teve a precaução de dizer explícitamente que “[a lista] não pretende ser a selecção definitiva, mas apenas um homenagem que se rende a todos os escritores em língua castelhana”. Seja como for, o leitor médio pode usar a relação para comparar com os seus próprios gostos e até para se actualizar, salvando as vagas que impõe o desconhecimento de autores e obras de países afastados. Só por esta última ração já resulta recomendável.
A nivel pessoal, diremos só que nos satisfaz a falta de certos nomes, exaltados por certa imprensa por rações arredadas de critérios estrictamente literários (amiguismo, grandes superventas) e receptores de grandes prémios "de relumbrón" (casos de Antonio Gala, Fernando Sanchez Dragó, Juan Manuel de Prada... por não hablar nas mais bem patéticas tentativas asinadas pelo César Vidal quando dispõe dun minutos para escrever algo que não seja um libelo ou uma vulgaríssima manipulação de algum facto histórico, desses com que sale a ração de 27 livros por ano).
A destacar também que os paises consignados trás dos nombs dos escritores referem-se aos lugares de nacimento de cada escritor, e não sempre a aqueles onde as suas obras foram publicadas por primeira vez. Em este caso, cabe preguntar-se se não debera ser o país de publicação o lugar indicado. Assim ocorre com o Roberto Bolaño, por ejemplo, cujos romances apareceram originalmente em España. De qualquer jeito, prova isto que a verdadeira pátria do escritor (e de qualquer pessoa, em realidade) é a língua que fala e não o lugar onde nasceu, nem aquele outro no que se viu obrigado ou escolheu para viver.
À literatura galega resta-lhe um longo caminho para se equiparar com a espanhola (sobre tudo, de perseverar na actual normativa), mas uma lista semelhante e mais modesta poderia ser experimentada. Entre os melhores romances em galego, eu escolheria:
Scórpio, de Ricardo Carvalho Calero.
Tic-tac, de Suso de Toro.
Os livros arden mal, de Manuel Rivas.
A nosa cinza, de Xavier Alcalá.
Dos anxos e dos mortos, de Anxo Rei Ballesteros.
Retorno a Tagen Ata, de Xosé Luis Mendez Ferrin.
Xa vai o grifón no vento, de Alfredo Conde.
Devalar, de Ramón Otero Pedrayo.
Merlin e familia, de Álvaro Cunqueiro.
Non hai misericordia, de Xelís de Toro.
Agora proponho que quem leia isto, vote pelos seus dez preferidos e ver se podemos sacar a primeira lista de romances galegos clássicos e canónicos. Anima-se alguém?
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quinta-feira, abril 26, 2007
A bolsa de aluguer e a política social da Xunta
As ajudas eram um “presente envenenado” que o anterior governo aprovou antes das últimas eleições autonómicas. Abriu-se uma bolsa de pisos em aluguer e uma linha de subvenção económica para os solicitantes. Os passos do processo eram os seguintes: os proprietários incluiam as propriedades numa lista, gestionada pela Xunta. Esta lista era apresentada aos cidadãos que estavam a procurar vivenda. A Xunta comprobava o estado e as características da vivenda e, uma vez aprovada, colgava fotos em internet. O importe máximo do aluguer fixava-se seguindo os parámetros duma táboa que incluia variantes como se o aluguer incluia ou não praça de estacionamento, “trasteiros”, etc... Também oferecia ajudas para a rehabilitação da vivenda, mas sob a condição de que esta passasse a estar disponível para este programa de aluguer durante cinco anos. O propietário garantizava não ter dévedas pendentes com as Fazendas galega e estatal e que a vivenda estava devidamente registada.
O solicitante, inscrevia-se noutra lista da Conselharia de Vivenda e Solo, consultava a página web de vivendas disponíveis e solicitava a visita às que podiam interessar-lhe. Se achava uma do seu gosto, fazia a reserva com a Xunta e assinava o contrato com o proprietário. As condições para os solicitantes consistiam em não superar os 1800€ de renda familiar por mês; apresentar un aval bancário correspondente ao importe de três meses de aluguer. Um solicitante de renda baixa podia obter até a subsídio do 60% do importe do aluguer. Nada mais. Semelhantes “limites” faziam com que a demanda de vivenda registada na bolsa superasse a capacidade de gestão da Xunta.
O resultado foi que muita gente não podia acceder a uma vivenda da bolsa dentro do praço dum ano, momento no que se devia renovar o “papeleo” para não ser expulso da lista de solicitantes. As esperas e as lacunas nos requisitos eram tão grandes que apareceu a picaresca: quem estava já ocupando uma vivenda em aluguer, convencia ao proprietário para solicitar a ajuda. Como a Xunta pagava, o propietário podia subir o preço até o máximo fixado pela Xunta, porque a fim de contas, o inquilino ia pagar menos. Ademais, a paradoxa de ter que apresentar um aval, mas não estar na obriga de demostrar ingresos fixos, possibilitava que muitos estudantes pudessem acceder a alugueres subvencionados em cidades com campus, ainda que os seus progenitores estivessem em condições de pagar por esse aluguer. O lado bom do asunto era que “apareceram” da nada um número assombroso de vivendas que antes estavam “indisponíveis”.
Os contratos duravam um ano e existia a possibilidade de renová-los durante outros quatro, revisando as condições económicas do inquilino na fim de cada período. Uma grande quantidade de gente puido deste jeito acceder finalmente a uma vivenda em aluguer a um preço raçoável. Uma medida de caracter social adoptada por um governo conservador! O quê pensava fazer o PP de ter ganho as eleições, sabe-se lá. A quantidade de inversão necessária para manter um número crecente de solicitudes semeava a dúvida respeito as possibilidades de manter as condições muito tempo. A minha opinião é que no PP deveram de pensar que se ganhavam, já o arranjariam e, se perdiam, o problema já não era deles...
A chegada do bipartito ao poder significou efectivamente, um câmbio nas condições... a muitíssimo pior. Teresa Táboas asinou as modificações dos requisitos para novas solicitudes e a renovação das ajudas já concedidas, evindenciando que a vontade do novo governo era agotar a paciência dos inquilinos e forçar aos proprietários a retirar as suas vivendas do programa. Os objectivos desta táctica covarde não eram a ordenação racional dum sistema com muitas lacunas que favorecia o fraude, a pilheria e o despilfarro, senão deixar “morrer de morte natural” um programa considerado ruinoso mas muito popular. Como poderia um governo “progresista” cancelar uma iniciativa socialmente beneficiosa?
Em primeiro lugar, endureceram os requisitos que deviam cumprir os inquilinos. A rebaixa do tope na renda entrava dentro da lógica. Com ingresos de 1800€ não é necessário solicitar ajudas económicas para alugar vivenda. Novos baremos para o estabelecemento dos preços também tinham sentido, posto que antes as ajudas para solteiros que queriam algugar vivendas enormes podiam ser iguais que para famílias que solicitavam a subvenção para alugar un “mini-piso”. O que já não é correcto é que os preços máximos rebaixavam-se drasticamente e o proprietário tinha de deixar o piso na bolsa durante cinco anos, sem poder rexeitar inquilinos e ainda que não solicitara ajudas para reformas... Tendo en conta que os alugueres subem cada ano em vez de baixar, como esperava a Conselharia que os proprietários não perdessem dinheiro? Que inquilino poderia pedir ao proprietário que lhe fizera uma rebaixa? En realidade, esta medida força ao pago da diferença “em negro”.
Mas não acabam lá as dificultades, não. O trámite de renovação dos contratos leva agora três meses, durante os quais o inquilino debe pagar o 100% do aluguer sem que possa esperar devolução quando se ressolva a renovação... E isso sabendo também que as subvenções foram reduzidas.
O que está a suceder nos meses desde que se fizeram efectivas as reformas é que as reformas estão a deixar a inquilinos na rua ou a fazer com que tenham que procurar outra vivenda ou, como é o caso da maioria dos afectados que eu conheço, com que desesperem e julguem que já não paga a pena passar por tanto maltrato burocrático para obter uma ajuda miserável. O pensamento geral é "por mim, podem ir lijar-se".
Eis a grande política social do bipartito. Grandes novidades e grandes câmbios com respeito ao passado, efectivamente.
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quarta-feira, abril 18, 2007
sábado, abril 14, 2007
Volta ao paganismo (sem deixar a Galiza)



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segunda-feira, outubro 09, 2006
Galiza, terra lemming
Vejamos como se me ocorreu semelhante barbaridade. Em primeiro lugar, percebo desde há muito um desejo de destruição do médio físico, da terra, da geografia terrestre e marina da Galiza. Cada certo tempo permitimos que um super-mega-petroleiro emporcalhe o nosso mar e aniquile os nossos recursos marinhos. Os lumes florestais, o cultivo do eucalipto e o modelo turístico encarregam-se da devastação efectiva do que fica em terra; de jeito mais que eficiente. A deflorestação provoca secas permanentes e um agressivo câmbio climático que também cumpre a sua função neste cometido suicida. O alucinante urbanismo galego remata a obra: é o melhor garante de que nem as vilas nem as gentes aguentarão muitos anos na Galiza.
Em segundo lugar temos a destruição da economia galega. Nunca fomos um povo industrial, mas o desmantelamento dos estaleiros, a asfixia da nossa agricultura, ganaderia e pesca sem que os galegos tenham reagido é uma prova das suas ânsias de esmorecer tranquilamente.
O que nos leva ao terceiro aspecto: a destruição da sociedade. Ao desemprego provocado pela destruição da economia galega, há que adicionar o deserto glacial, cultural e político, que vivemos desde tempos imemoriais. Já não somos uma sociedade rural. Já não falamos galego. Não temos classe política com recursos, formação, sensibilidade e planos para a recuperação (ou seria melhor dizer a "redenção"?) do povo. Vivíamos num baldio e demos um salto ao vazio.
E agora vem o último. Hoje, os galegos matamos as nossas mascotes a paus. Empeçamos com a matança do porco, com umas poucas touradas e agora decidimos que já é tempo de acabar com os cães. Que país! mi madrinha!
Em fim, eu aceito a vontade dos meus compatriotas e, já que tem de ser assim, peço que, pelo menos, se me conceda a liberdade de escolher banda de som para tão louvável fim. Se vamos cara a própria extinção, vamos lá fazê-lo com alegria. Que tal enquanto soa "Road to Nowhere" dos Talking Heads. Não há nada mais adequado.
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quarta-feira, agosto 02, 2006
Os libros arden mal, de Manuel Rivas
Lida de princípio a fim, o livro tem uma estrutura clássica, mas também é possível ler as pequenas histórias uma a uma como se fossem independentes.
Ao escrever pensava num romance no que o leitor devorasse página trás página sem poder soltar o livro. Pelo menos, esse é o meu sonho.
Ainda estou metido no romance, nas personagens. Ainda não consegui livrar-me deles.
O escritor sorria e tinha palavras amáveis para todo o que se achegava à mesa onde assinava. A uma rapariga animou-a a ler muito, porque para escrever bem, há que ler bem. Acompanha a sua assinatura com o desenho duma esfera armilar e um barco ou um arco da velha. É bom que os escritores se mantenham tão perto dos seus leitores, mas fazê-lo com tanta naturalidade e amabilidade está nas mãos de bem poucos.
Os libros arden mal, de Manuel Rivas, está editado por Xerais.
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domingo, maio 28, 2006
Granate, a cor mais elegante

Já falta menos para completar o novo ascenso do Pontevedra CF. Nem a Inquisição federativa/arbitral pôde com nós. Temos uma missão divina, como os Blues Brothers, e não pararemos até chegar ao lugar que nos corresponde: a 1ª divissão do Há que roê-lo! A torcida granate terá de volver a suportar as partidas sem cerveja em Pasarón.

pd: quero enviar uma mensagem de ânimo aos seguidores do Racing de Ferrol. Em breve volveremos a encontrar-nos... na 2ªA!
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sábado, maio 20, 2006
Pós-data às Letras galegas
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domingo, maio 07, 2006
ENCE
O artigo que deu origem as cartas, assinado por Carlos Gomez, continha vários dados de interesse. Destacava a importância do câmbio na presidência da empresa e a habilidade com a que Caixa Galicia jogara as suas cartas no processo. Por uma banda, a caixa desprendera-se de um número de acções suficiente como para deixar de ser o máximo accionista de ENCE com a pretensão de evitar que a imagem da caixa se vise danada como consequência da delicada situação actual da fábrica de Pontevedra. Por outra banda, a chegada de Juan Luis Arregui à presidência, deve ajudar a melhorar a imagem ecológica da empresa.
A seguir, incluíam-se dados sobre os resultados económicos e bursáteis de ENCE mais uma análise das perspectivas de futuro da empresa. Informa-se assim de que em 2005, a divisão de celulosa e energia aportou 93,6 milhões de euros, o que supõe um incremento de 98% a respeito do ano anterior. Produziram-se 1.045.879 toneladas de celulosa (incremento dum 2%), cifra que se pretende aumentar ainda um 50% em três anos graças à construção duma nova fábrica em Uruguai. Além disso, o grupo produziu 1,24 milhões de mega vátios hora de electricidade (1% mais do que em 2004) e aumentou as vendas de electricidade a terceiros em 50%. Também assinalava-se a possível aquisição duma fábrica já existente em Portugal e a intenção do grupo de vender parte da sua quota de emissão de CO2 e energia proveniente da biomassa. A divisão florestal de ENCE aumentou em 4% o volume de negócio em 2005, aportando uns benefícios de 19 milhões de euros.
O tono do artigo era neutro, ainda que a objectividade dos dados e o optimismo dos cálculos para o futuro (económicos e estratégicos) deixavam transluzir que a fonte dos mesmos era a própria empresa. O problema é que o autor do artigo não quis em momento nenhum chamar as coisas pelo seu nome. A ver se o fazemos nós.
Em primeiro lugar, há que denunciar a jogada propagandística do câmbio na presidência. Méndez e Caixa Galicia seguem a ser accionistas de ENCE, só se retiram da primeira linha para que a caixa não se lixe se as coisas se põem feias com o traslado da fábrica de Pontevedra. Caixa Galicia actua com a cobardia de quem sabe que está a fazer mal mas poder tirar algum benefício de não chamar muito a atenção. Seria muito prejudicial que perdesse força precisamente na Galiza. Isso pode-se chamar medo ou covardia. A postura valente seria a de liquidar as participações e reconhecer o erro de haver invertido numa empresa tão nociva para a nossa terra, para toda a nossa terra. Não se explica que uma empresa com tanto incremento dos benefícios, nem com tão bons augúrios para o futuro imediato afirme categoricamente a inviabilidade económica do traslado. O facto, pois, é que não querem investir os benefícios, como durante anos evitaram modernizar os filtros das chaminés ou o tratamento dos resíduos líquidos que botam à ria.
Em segundo lugar, Carlos Gomez, durante boa parte do artigo, varia o foco de atenção do mesmo entre os problemas da fábrica de Pontevedra e a marcha do grupo ENCE como conjunto. Deste jeito, parece que os grandes benefícios do grupo procedem da ameaçada planta de Pontevedra. Diz-se que a planta de Pontevedra tem licença administrativa para seguir com a sua actividade até 2018, quando deveria dizer que ao expirar a licença nesse ano, a fábrica deveria ser trasladada antes. Há referências ao fracasso de Mendez/Caixa Galicia no intento de fechar o ciclo de fabricação com a construção duma fábrica de papel-tisú, mas não se fala da negativa rotunda de ENCE ao traslado, nem o tremendismo (a incrível cifra que a empresa afirma que haveria de custar o traslado), as ameaças (desaparição de postos de trabalho na comarca) ou as chantagens (acordos económicos com clubes desportivos de Pontevedra, pago de publicidades milionárias nos meios pontevedreses) com as que ENCE trata de evitar cumprir com a Lei de Costas que impõe o seu alongamento da Ria de Pontevedra antes do 2018. Ainda pior, insinua-se no artigo que o único interesse dos partidários do traslado é o facto de que a fábrica deixaria livres 40 hectares urbanizáveis cerca de la turística Sangenjo (sic).
Em terceiro lugar, informa-se do juízo por delito ecológico que vários ex-directivos de ENCE evitaram aceitando uma multa de 30.000 euros cada um e uma indemnização da empresa à Xunta por valor de 433.000 euros. Quem tem memória lembra que durante todos os anos pelos que se pretendia julgar a ENCE e aos seus directivos (1964-1994), a empresa negou sistematicamente o carácter contaminante dos seus vertidos à ria, é dizer: mentiu. Pouco parece importar que o reconhecimento da empresa suponha o reconhecimento de ter cometido pelo menos dois ou três delitos além do ecológico, nem que a indemnização fosse ridícula se a compararmos com a inversão e o tempo que a zona vai precisar para a sua recuperação. O colmo já chega quando o autor, num exercício de ingenuidade que roza o cinismo, di que "aunque se supone que dichos vertidos está subsanados desde mediados de los noventa y que las instalaciones cumplen la normativa medioambiental española y europea, porque en caso contrario debería haber sido ya sancionada e interrumpida su actividad fabril". Se calhar, deveriamos lembrar que o anterior governo da Xunta era um dos máximos defensores da permanência da factoria na ria de Pontevedra e totalmente contrário a exigir a ENCE o cumprimento das normativas europeias.
Por último, o articulista não menciona que a oposição a que a fábrica de Pontevedra mantenha o seu actual emprazamento não se limita à capital, senão que recebe apoios de todos os concelhos da ria directamente afectados pelos vertidos da Celulosa, pelos colectivos de mariscadores e pescadores, assim como por grupos ecologistas de toda Galiza, norte de Portugal, Astúrias e Castela-León, zonas todas elas afectadas pelas necessidades de madeira das fábricas de Pontevedra e Návia, e que implicam a exploração de espécies arbóreas prejudiciais como o eucalipto.
As hemerotecas são muito úteis para comprovar como o comportamento de ENCE desde a sua criação pela ditadura franquista tem-se caracterizado por uma absoluta falta de ética e de respeito pela saúde das povoações da Ria de Pontevedra. Nenhum artigo tendencioso, nenhuma artimanha de ENCE vão cambiar nem isso nem a consciência da gente de que a Celulosa é nociva para a ecologia, e a economia da zona (turismo, agricultura e pesca).
Não queremos terminar sem nos referir à última carta aparecida na secção de cartas ao director de El País o passado dia 5 de Maio, e assinada por um científico de ENCE encarregado de I+D. Nela, o autor defendia a sua empresa das acusações de verter cloro na ria, entre outras afirmações. Estamos dispostos a aceitar a sua palavra de que não vertem cloro, mas gostaríamos de que em lugar de falar do que não vertem, falaram do que sim estão a botar ao mar (mercúrio, metais pesados) e ao ar (enxofre, etcétera). Como o delito ecológico cometido durante 30 anos saiu-lhe tão barato, ENCE pode permitir-se seguir a dizer mentiras sobre as consequências reais da sua actividade em Pontevedra. O dia 5 de Maio, La Voz de Galicia publicou que ENCE está a considerar o seu traslado a Ferrol-Terra e falou dos intereses do grupo em Ortigueira (num artigo que recolhia ponto por ponto o enfoque do publicado por El País). Galiza inteira sente a pressão económica de ENCE. Galiza inteira deve asegurar-se que ENCE cumple a legalidade, as normativas medioambientais e abandona certas práticas carentes de ética que marcaram a sua trajectoria até o momento.
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quinta-feira, março 16, 2006
Blogaliza, Blogalego e a blogosfera pangalaica
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terça-feira, março 07, 2006
O futuro do galego
Bom, não divaguemos. O mais curioso da entrevista em questão era que estava escrita em espanhol, ainda que destacava que tanto a galega de apelido italiano como o seu marido marroquino, FALAVAM GALEGO, e reproduzia as frases deles em galego. Será esse o futuro da nossa língua? Uma língua falada só pelos imigrantes? Eu não tenho nada em contra disso. Manuel Rivas já disse que o futuro da nossa população passa pelos filhos dos imigrantes; é lógico que eles sejam também os que mantenham vivo o idioma.
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sábado, março 04, 2006
Morreu o papagaio!
Há já muitos anos que o entrudo pontevedrês deixou de enterrar sardinhas para enterrar papagaios reivindicativos, como não podia ser menos dada a história do defunto em quanto estivo vivo. O Ravachol original foi um famossísimo assasino de mulheres francês de fins do século XIX que se revelou como um terrível anarquista sem deus nem amo durante o seu juízo. Não se sabe se quando Perfecto Feijoo adoptou ao papagaio e o pôs na sua botica da Igreja da Peregrina, o animal já tinha o nome do anarquista ou foi ideia feliz do boticário e folclorista pontevedrês; mas o caso é que o papagaio se fez pronto com uma merecida fama de "deslenguado", proferindo insulto e palavrões que espantavam às beatas que iam a missa. Tambem repetia frases mais inocentes, que às vezes eram pronunciadas em situações que provocavam a hilaridade geral:
"Si collo a vara", "Don Perfeuto, xente na tenda", "Un patacón de manesia", "Aquí non se fía". Dizque ao político Montero Rios dirigiu-lhe um "Vaite de aquí larpeiro" e que ao mesmíssimo Castelar chamou-o "Demo de barbas".
O papagaio morreu em 1913, num martes de entrudo e o seu sepélio foi digno dum rei. Milheiros de enlutados pontevedreses acompanharam o finado entre grandes exibições de dor. Desde há uns vinte anos, Pontevedra rememora o enterro do papagaio de Don Perfecto e as suas ocorrências como símbolo distintivo do seu entrudo.
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segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Imperialismo blogalego
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quarta-feira, janeiro 25, 2006
Depressão
"Lo de escribir en esa especie de portugués me parecede un esnobismo insultante. ¿Por qué no pruebas con el esperanto de una vez? Espero que no te importe que te conteste en castellano.
Un abrazo".
Penso que há que aclarar que o meu amigo, ainda que sinta um ódio irracional misturado com uma influência da direita mais retrógrada, é galego. Tenho tentado muitas vezes em falar com ele do tema, tratar de analisar o por que desse sentimento de desprezo por algo que nem sequer entende. Mas já não. Como professor o primeiro que aprendi é que quem não quer apreender ou entender algo não o fará jamais. Assim que armo-me de paciência e replico-lhe, por suposto em castelhano, para que entenda:
"¿Especie de portugués? Te puedo asegurar que es portugués 100% auténtico y tan bueno como somos capaces de usarlo yo y el diccionario electrónico que me corrige los errores léxicos y sintácticos. ¿Cuál es el problema? ¿Que no escribo en inglés? Creía que entenderías mejor el portugués...
Besos"
Assim nunca chegaremos a nada.
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segunda-feira, janeiro 16, 2006
Patrick Kavanagh, poeta galego

A biografia –literária e vital– de Patrick Kavanagh daria para estabelecer uma dessas odiosas comparações entre a Galiza e outras latitudes irmãs das que tanto gostamos para poder obviar o difícil que o têm outros e recalcar o mal que o temos nós. Claro que o caso de Patrick Kavanagh é um caso especial, porque se o estudamos com atenção chegamos à conclusão de que em vez de ter nascido no lugar de Mucker, paróquia de Inniskeen, condado de Monaghan, no Ulster ainda baixo domínio britânico (o nosso poeta nasceu em 1904), podia ter vindo ao mundo em Vimianzo, Campolameiro, Lantemil ou Castropol. Pouco havia cambiar a sua peripécia vital e poética.
Kavanagh era filho dum sapateiro e labrego dos mais humildes e não assistiu a escola além dos treze anos, pelo que teve de continuar a sua formação lendo as antologias escolares de autores clássicos ingleses. Durante a sua mocidade fez-se cargo das leiras familiares, dos animais e do ofício de sapateiro remendón do pãe enquanto na sua cabeça compunha poemas e sonhava com se converter em poeta. Nestas estava em 1925 quando acudiu a uma feira em Dundalk. Enquanto aguardava ao lado dum quiosque, viu uma revista, o Irish Statement, que não só lhe fez descobrir a Yeats e Joyce, senão que se converteu no seu instructor pessoal. Será no Irish Statement onde publicará por primeira vez e será o director da revista e factotum das letras irlandesas da época, AE (George Russell), quem o apadrinhará no mundo literário. A revista fechou em 1930, e nesse tempo Kavanagh foi medrando como poeta, mas não estava seguro de ter o necessário para triunfar nas letras. A sua humilde origem e a falta duma educação formal superior provocavam lógicas dúvidas que lhe impediam tomar uma decisão. Mas o tempo passava e Kavanagh conseguiu publicar também poemas em jornais e revistas inglesas e foi uma editorial inglesa, a Macmillan, a que publicou o seu primeiro poemário: The Ploughman and Other Poems. Outra editorial inglesa encomendou-lhe escrever um livro sobre a vida na Irlanda rural.
The Green Fool teve grande sucesso de crítica e isto decidiu-o a abandonar Inniskeen por Dublin e dedicar-se profissionalmente à literatura, mas o retrato que escreveu pronto deixou de satisfazer ao seu autor. Kavanagh deveu cogitar se explorar por mais tempo um mercado evidentemente receptivo a esse tipo de casticismo rural, mas ele sentiu que estava a trair a realidade ao descrever a vida na sua paróquia tal e como o público cosmopolita de Londres e Dublin a queriam e não como ele a percebia. No livro, em efeito, aparece uma Arcádia irlandesa feliz, o melhor dos mundos possíveis, tratada de jeito amável e cheia de curiosidades sociais e folclóricas. O camponês passara a formar parte do imaginário nacionalista já muito antes da independência e os autores deviam ajustar-se a certas tipologias fixadas: o labrego pobre, mas satisfeito e em paz que compunha uma figura espiritual desconhecedora do interesse material; o sujeito que era como um arquivo vivo dos costumes, as tradições e as cantigas e as músicas antigas; estava o homem “sábio e simples” do campo; e a personagem selvagem e elementar: o rebelde violento, bebedor e alvoroçador. Logo estavam os que falavam gaélico ou um inglês colorista e lírico impregnado de calcos do gaélico. Além disso, as personagens viviam sempre no oeste da ilha: Connacht, as ilhas Aran ou Sligo. O próprio presidente da república, Eamon De Valera, deixava-se levar pelo entusiasmo do seu sonho populista e falava num discurso radiofónico numa idílica Irlanda rural, satisfeita de si mesma e povoada por comunidades auto-suficientes, piedosas e espartanas cujo veículo de expressão quotidiana sería o gaélico. A Kavanagh, quem conhecia de primeira mão as penúrias desse tipo de vida, essa imagem romântica pronto começou a irritá-lo e publicou The Great Hunger a modo de resposta. Já para então dava-se com um grupo de escritores colaboradores da publicação The Bell (Frank O’Connor, Sean O’Faolain e Peadar O’Donnell), que proclamavam que o ideário romântico que promovera o grupo de escritores do Irish Literary Revival (Lady Gregory, Yeats e Synge) estava antiquado e havia que desbotá-lo em favor de formas mais realistas de achegar-se à nova Irlanda.
Kavanagh até tomou consciência plena de que o que até o momento tinha percebido como um obstáculo às suas aspirações literárias (a sua procedência humilde e camponesa, a sua falta de educação académica) certificavam a sua pertencia a um grupo social determinado: o do pequeno labrego e granjeiro católico que conformava a maior parte da população irlandesa do momento. Como representante letrado do grupo, assumiu a tareia moral de denunciar as visões interessadas do mundo rural. Este aspecto é o que faz com que a leitura de The Great Hunger resulte mais demolidora, junto com o tono profético e a feroz denúncia da vitória do materialismo sobre a espiritualidade na Irlanda rural. O poeta protestou pelo carácter minoritário dos membros do Irish Literary Revival, cujos membros pertenciam às elites anglo-irlandesas protestantes e desconheciam a verdadeira vida no campo. Além disso, o catolicismo converteu-se num dos eixos do programa da nova estética realista e fundira-se com o radicalismo literário de Kavanagh. O seu objectivo sócio-literário consistiu desde então na descrição literária da Irlanda católica.
Kavanagh apartou-se bem cedo desta posição destacada como poeta representativo do autêntico labrego irlandês. Sim perdurou a sua convicção de que a ideia duma Irlanda monolítica tal e como a apresentava o I.L.R. não era senão uma ficção literária. O que ele denominava “o mito de Irlanda como uma unidade espiritual”, identificando-o sobre tudo com Yeats, era de facto uma criação nacionalista que persistira na poesía anglo-irlandesa desde a segunda metade do século XIX como contribuição ao programa político da independência. Uma Irlanda sem diferenças de classe nem regionais apresentada como um símbolo absoluto que opor ao colonialismo britânico e que contribuía à definição da nova colectividade. Para os críticos nacionalistas, não era bastante com que a poesia tivera uma assinatura irlandesa, devia reflectir a tradição lírica do gaélico. Na sua poesia, como nos seus artículos de periodismo literário, Kavanagh comprometeu-se na desconstrução e substituição da mitologia nacionalista. A sua hostilidade pela etnicidade como critério estético fica patente na frase “o irlandês é uma forma de anti-arte”.
Ao mito sincrético de carácter nacional, Kavanagh opôs o mito da paróquia, desafiando a simbologia unificadora e insistindo na superioridade do local na literatura. O seu romance cómico-realista Tarry Flynn (1948) consiste num retrato do escritor rural e centra-se na relação de amor e ódio com a sua paróquia. O seu herói epónimo, um místico poeta-labrego, é também uma personagem cómica muito pouco digna, dominado pela sua mãe, materialista e lercha, e incapaz de fazer fronte às intrigas duma comunidade fisgona e egoísta. Inniskeen transforma-se em Dargan e situa-se no condado de Cavan, mas o fundo autobiográfico resulta evidente quando ao herói atribuem-se-lhe três poemas publicados anteriormente por Kavanagh.
Ao igual que fizera Wole Soyinka a respeito da negritude (“um tigre não proclama o seu trigrismo”), Kavanagh há afirmar que “um homem é o que e, e se existe uma qualidade mística na sua Nação ou na sua raça esta há-se filtrar através da sua pele”. Para Kavanagh não existia conflito de nenhum tipo a respeito do inglês que utilizava para escrever. O inglês era a sua língua vernácula e o gaélico que a pressão nacionalista posterior à independência tratava de impor era o verdadeiro idioma importado.
A 2ª Guerra Mundial abriu uma nova crise nos postulados literários de Kavanagh e desta maneira, ao fim da década dos 50, o poeta declara que “as verdadeiras raízes da poesia nascem da nossa capacidade de amar e no seu abandono” e redefiniu ao artista provinciano como aquele que “vive do amor dos outros”. Deste jeito, o seu poema The Hospital pode ler-se como um manifesto desta nova etapa. Finalmente, chegara a uma poética que resultava a um tempo inclusiva e individual, graças à qual podia substituir uma estética étnica não por uma estética tribal, senão por uma baseada no afecto e acessível a todos. Os seus versos voltam-se então introspectivos e confessionais; um meio de auto análise e crescimento pessoal.
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domingo, janeiro 15, 2006
Manuel Rivas e os conflitos linguísticos pessoais
Pode-se, por tanto, imaginar o esforço que supôs para mim falar galego. Ao princípio, misturava-o com o espanhol massacrando ambos idiomas. Às vezes esquecia-me do que estava a falar e cambiava dum idioma a outro repetidamente numa conversa. Os meus exames de galego e lengua castellana eram caso de estudo. Ouvi dizer a muita gente que o ponto de inflexão de todo o processo estava no momento no que um começa sonhar em galego. Não posso certificar tal asserto porque desde o primeiro e até hoje eu alternei sonhos espanhóis com sonhos galegos.
A vocação levou-me a estudar filologia inglesa e a vida a viver em Londres. O meu enleio alcançou daquela um novo limite. Quando lia um livro em espanhol tinha que reacomodar-me ao inglês e tardava uns dias em fazê-lo completamente. Aqui em Madrid continuo a ler em inglês mas não sofro traumas ao pousar o livro e retomar o espanhol. Tenho lido também livros em galego (galego da Galiza, de Portugal, galego moçambicano e galego de Brasil) sem maiores problemas. Porém, acontece-me agora que quando pouso o livro que estou a ler não deixo de pensar em galego e as primeiras palavras que me saem são galegas até que logro reajustar o chip linguístico. O culpável é Manuel Rivas e esta é a maior gabança que posso fazer dele: faz-me sentir que estou na casa.
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sexta-feira, janeiro 13, 2006
Três escritores para sempre
Suso de Toro representa duas coisas muito importantes na literatura galega actual. Duma banda, as suas primeiras obras representam uma ruptura necessária com uma certa tradição literária que já esgotara o seu caminho nas letras galegas. Essas primeiras obras de Suso de Toro racham com tudo aquilo que cheirava a reseso e exploravam, quando não criavam, novas formas de expressão: a linguagem coloquial, a fragmentação narrativa, a renovação de temas... As personagens e os cenários nesta primeira etapa pertenciam a tipos galegos, mais os referentes literários provinham de fora da Galiza. Suso de Toro mantinha um olho na aldeia e na vila galega e o outro na história da literatura universal.
Esta etapa culminou com Tic-Tac, uma obra destinada a medrar em consideração com o tempo. A partir dessa obra, o próprio autor teve a honradez de reconhecer que ele também esgotara o seu caminho e dedicou-se ao que ele denominava algo assim como a recuperação da narração clássica. Os seus romances, desde Calzados Lola até Trece badaladas, reflectem uma progressiva madureza e um domínio cada vez maior dessa narração, longe já das experimentações de Caixón desastre ou Polaroid.
Por outra banda, de Toro representa também a reflexão sobre o ofício de escritor galego. Nos seus ensaios fala de Shakespeare ou Joyce, da necessidade de escrever em galego com a mente na maneira de expressão do inglês, das vantagens de adaptar a norma galega ao português (apoiando-se na simples consciência da amplitude de mercado que haviam ganhar os galegos, escritores ou não). Além disso, reclamava a galeguidade de Valle-Inclán e Torrente Ballester, recebendo paus a direita e esquerda por elo.
O segundo autor que merece manter o seu nome nos futuros manuais de literatura galega é Manuel Rivas, que representa a conexão telúrica com a Terra, com a Galiza. Os romances de Rivas dão sempre a impressão de estar escritos por encarnações da Terra e da Língua. O seu galego é doce e harmonioso, faz-nos sentir a sua familiaridade e arrola-nos durante a leitura. A saudade permeia a escritura de Manuel Rivas tanto como a preocupação pelo ser histórico do galego. E esse conhecimento do que é este país e como são as suas gentes, os seus povos, a sua paisagem e os seus animais está também presente nos seus textos jornalísticos. Neles, Manuel Rivas faz uso da sabedoria e a fala dos nossos avós e fá-lo ademais com sensibilidade, sentido crítico, perplexidade e uma ironia como não se via desde Julio Camba ou Wenceslao Fernandez Flórez. Quando Rivas solta um dardo num artigo, crava-o no mesminho centro do alvo. Só há que ler Galicia Galicia para perceber até que ponto o nosso autor é capaz de explicar a todos –galegos e godos– como é realmente este curruncho de Europa.
O terceiro dos nossos escritores preferidos é autor dum bon número de livros surpreendentes. Os nossos preferidos são aqueles pelos que descobrimos ao autor: Ártico e Contornos: apuntes de filosofía natural. Estas obras, as primeiras do autor, apontavam algo totalmente original dentro da literatura galega. O seu mérito era o duma modernidade absoluta na descrição duma forma de sensibilidade íntima e pessoal mas capaz de comover a qualquer leitor. Nos primeiros livros de Xavier Queipo havia ecos borgianos misturados com retalhos sobre geografias exóticas e deslumbrantes mundos ocultos baixo a capa de algo tão asséptico como a ciência. A sua producção posterior afastou-se algo deste estilo, mas o espírito que a alentava seguiu a ser o mesmo: distintas vestiduras para a mesma substância. Diarios dun nómada é um diário íntimo; O paso do noroeste um romance de primeiro ordem que mistura a aventura com a reflexão sobre a condição humana, ao igual que Papaventos.
Cuidamos que estes três autores pertencem por idade a um grupo geracional dentro da história da literatura galega. Esta breve lista haveria, se calhar, que acrescentá-la com outros nomes. Existe um feixe de apreciáveis narradores em língua galega além dos citados: Aníbal Malvar, Jaureguizar, Xelís de Toro... mas nenhum deles conseguiu ainda a unânime aceitação dos três que destacamos aqui.
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