domingo, janeiro 15, 2006

Manuel Rivas e os conflitos linguísticos pessoais

Três quartos da minha família é goda –como diria Torrente Ballester– ou estepária –como diria um companheiro de trabalho também galego em Madrid–. Isso quer dizer que eu não “mamei” o galego, que tive de aprendê-lo e decidir por mim mesmo falá-lo. Acrescente-se a esta circunstância o facto de haver eu nascido e vivido toda a minha vida numa vila que, ainda que protagonista dalguma das páginas mais gloriosas do galeguismo, tentou esquecer durante muitos anos que à Geografia não a engana ninguém.

Pode-se, por tanto, imaginar o esforço que supôs para mim falar galego. Ao princípio, misturava-o com o espanhol massacrando ambos idiomas. Às vezes esquecia-me do que estava a falar e cambiava dum idioma a outro repetidamente numa conversa. Os meus exames de galego e lengua castellana eram caso de estudo. Ouvi dizer a muita gente que o ponto de inflexão de todo o processo estava no momento no que um começa sonhar em galego. Não posso certificar tal asserto porque desde o primeiro e até hoje eu alternei sonhos espanhóis com sonhos galegos.

A vocação levou-me a estudar filologia inglesa e a vida a viver em Londres. O meu enleio alcançou daquela um novo limite. Quando lia um livro em espanhol tinha que reacomodar-me ao inglês e tardava uns dias em fazê-lo completamente. Aqui em Madrid continuo a ler em inglês mas não sofro traumas ao pousar o livro e retomar o espanhol. Tenho lido também livros em galego (galego da Galiza, de Portugal, galego moçambicano e galego de Brasil) sem maiores problemas. Porém, acontece-me agora que quando pouso o livro que estou a ler não deixo de pensar em galego e as primeiras palavras que me saem são galegas até que logro reajustar o chip linguístico. O culpável é Manuel Rivas e esta é a maior gabança que posso fazer dele: faz-me sentir que estou na casa.

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