segunda-feira, outubro 09, 2006

Galiza, terra lemming

Cada dia assalta-me com maior intensidade a impressão de que a minha terra decidiu-se há tempos pelo suicídio colectivo ou, mais bem, pela auto-aniquilação total. Como um povo de lemmings, decidimos um dia correr desesperadamente e sem pejos cara ao abismo. Lá no fundo, já dissera Cortázar, está a Morte, mas não de temer-se...

Vejamos como se me ocorreu semelhante barbaridade. Em primeiro lugar, percebo desde há muito um desejo de destruição do médio físico, da terra, da geografia terrestre e marina da Galiza. Cada certo tempo permitimos que um super-mega-petroleiro emporcalhe o nosso mar e aniquile os nossos recursos marinhos. Os lumes florestais, o cultivo do eucalipto e o modelo turístico encarregam-se da devastação efectiva do que fica em terra; de jeito mais que eficiente. A deflorestação provoca secas permanentes e um agressivo câmbio climático que também cumpre a sua função neste cometido suicida. O alucinante urbanismo galego remata a obra: é o melhor garante de que nem as vilas nem as gentes aguentarão muitos anos na Galiza.

Em segundo lugar temos a destruição da economia galega. Nunca fomos um povo industrial, mas o desmantelamento dos estaleiros, a asfixia da nossa agricultura, ganaderia e pesca sem que os galegos tenham reagido é uma prova das suas ânsias de esmorecer tranquilamente.

O que nos leva ao terceiro aspecto: a destruição da sociedade. Ao desemprego provocado pela destruição da economia galega, há que adicionar o deserto glacial, cultural e político, que vivemos desde tempos imemoriais. Já não somos uma sociedade rural. Já não falamos galego. Não temos classe política com recursos, formação, sensibilidade e planos para a recuperação (ou seria melhor dizer a "redenção"?) do povo. Vivíamos num baldio e demos um salto ao vazio.

E agora vem o último. Hoje, os galegos matamos as nossas mascotes a paus. Empeçamos com a matança do porco, com umas poucas touradas e agora decidimos que já é tempo de acabar com os cães. Que país! mi madrinha!

Em fim, eu aceito a vontade dos meus compatriotas e, já que tem de ser assim, peço que, pelo menos, se me conceda a liberdade de escolher banda de som para tão louvável fim. Se vamos cara a própria extinção, vamos lá fazê-lo com alegria. Que tal enquanto soa "Road to Nowhere" dos Talking Heads. Não há nada mais adequado.

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