quinta-feira, junho 28, 2007

Les amants réguliers


Agora que o Sarko ataca de jeito desumano o 68 francês [nota: não esquecer JAMAIS que existiram outros 68: Ciudad de México, Berkeley, Praga, até Madrid; embora não sempre coincidiram em datas com a grande festa-incêndio situacionista de Paris], e tenta convertê-lo no responsável de todos os males que assolam actualmente à República Francesa revisar esta maravilhosa película de Philippe Garrel finalmente editada em DVD por Intermedio converte-se num saudável exercício intelectual e emocional.

Já se disse que Les amants réguliers é um filme que faz de contraponto a The Dreamers, embora seja muito superior à fita do Bertolucci. Mas algo de verdade existe na afirmação, já que se ocupam da mesma época fixando a atenção em personagens com similares motivos existenciais. Mas Garrel vai além do Bertolucci e o seu caminho é o do doloroso fracasso dos sonhos e anelos duma utopia que muito perto esteve de se tornar real; enquanto Bertolucci limitou-se a permitir que as suas personagens se perderam no meio das revoltas por simples inércia adolescente e amor pelo cinema. E é por isso que Les amants réguliers é infinitamente mais valiosa, porque fala desde a época (Garrel filmara de câmara em mão os distúrbios parisienses do 68 conseguindo o que Godard disse que era o único filme sincero sobre esses acontecimentos) e porque todos os sonhos e anelos dos que falávamos antes concentram-se, misturados com a amargura e a desorientação do seu desvanecimento, nas três horas que dura a película. Em este sentido, é crucial a cena na que três gerações da família Garrel reúnem-se numa cozinha para falar da perda da esperança: o avô, actuando para o pai que está trás da câmara, e o filho, protagonista da película (e de The Dreamers). Estabelece-se assim uma continuidade na história de essa revolução que-não-foi por culpa da reacção gaullista e a traição dos sindicatos. E o filho, Louis Garrel, recebe da sua própria família uma lição do que era compromisso político, ético e espiritual há já tantos anos.

A película funciona também como remate da Nouvelle Vague, como continuadora dum estilo distinto de fazer cine oposto radicalmente à banalidade, a estupidez ou o paternalismo absurdo que temos de sofrer os espectadores cada vez que tragamos um novo subproduto hollywoodiense. Não há nada artificial em Les amants réguliers, porque iria contra a sinceridade brutal que procura a película. Não há falsa espectacularidade nem sequer nas cenas de luta nas ruas. E também não existem explosões sentimentais dirigidas a públicos embrutecidos. Tudo transcorre como a própria vida, num branco e preto desapiedado e delicado, e a gente acredita que está a ver uma película de Bresson ou dos primeiros Godard, Rohmer ou Truffaut; ou melhor: uma película de Jean Eustache, amigo e mentor de Philippe Garrel a quem este pretendia fazer homenagem.

Esta película converter-se-á numa obsessão para muitos que se verão reflectidos no seu compromisso. Converter-se-á numa obra à que teremos que volver constantemente durante anos e que se poderá ensinar com orgulho para demonstrar o que é em verdade o cine.

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terça-feira, abril 24, 2007

Dylan no meu reproductor de DVD na próxima semana...



E quem pode agardar tanto tempo?

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sexta-feira, abril 20, 2007

A crítica de cine inexistente...

Hoje tinha intenção de rescrever esta crítica sobre o melhor filme que já vi este ano... mas estou preguiçoso.

Bom fim-de-semana a todos.

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domingo, fevereiro 04, 2007

Poema de Arseni Tarkovsky em "Zerkalo"

Recebo, a través duma lista de correios dedicada a Andrei Tarkovsky, a transcripção em espanhol dum dos poemas do seu pai, Arseni Tarkovsky que aparecem no filme O espelho, e não me resisto a partilhá-la com vós.

PRIMER POEMA DE "ZERKALO"

De nuestros encuentros,
cada instante era fiesta
con el dios distante.

Solos en todo el mundo.
Eras más valiente y liviana
que el ala de un ave.

Por la escalera, como un
mareo acosante,
corrías y me llevabas - suave -
dentro de la húmeda lila
a tus dominios insondables
por la otra parte del espejo.

Y al llegar la noche
me fue regalada la piedad,
se abrió la puerta del altar
y brilló,
brilló en la oscuridad
la desnudez en su lento declinar.

Y al despertar: "¡Bendita seas!"
dije y supe que era audaz mi bendición:
dormías tú,
y se extendía la lila para tocar
tus párpados con el azul del Universo.

Y los párpados que el azul tocó
quietos eran, y la mano, tibia.

Y pulsaban los ríos en el cristal,
humeaban los cerros,
brillaba el mar.

Una esfera de cristal
tenías en tu mano.
Dormías en un trono elevado.
Y ¡Dios sagrado!
Mía eras, mía, mi beldad.

Despertaste y transformaste
el léxico de la humanidad.
Y al habla,
de fuerza sonora colmaste
y la palabra "tú" mostró
- oh, arte -
su nueva esencia y significó: "zar".

odo cambió en el mundo,
Hasta las cosas sencillas,
palangana, bocal,
cuando detenida entre nosotros
estaba
el agua dura y laminada.

Algo nos llevó al más allá,
y, cual espejismo, se distanciaba
- construida por milagro -
la ciudad.

A nuestros pies la menta
se acostaba
y las aves seguían
nuestra ruta larga
y los peces en contra
iban de las aguas
y se abrió el cielo ante nosotros
cuando el destino nos siguió celoso
cual un loco que lleva una navaja.

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quarta-feira, novembro 22, 2006

O último de Allen & Scorsese

Já não há quem negue a Martin Scorsese nem a Woody Allen o status de clássicos modernos. As suas filmografias estão cheias de grandes títulos e os seus estilos criaram escola. Mas é certo também que já há anos que a sua trajectória pode ser qualificada, pelo menos, de errática. As suas últimas fitas são um claro exemplo: Allen volve entregar um filme menor, feito como sem vontade; e Scorsese parece recuperar algo do seu melhor cinema, mas só algo. Vejamos isto tudo com mais calma.


A crítica é quase unânime à hora de louvar Infiltrados (The Departed), que semelha o retorno de Scorsese ao tipo de histórias que o fizeram o melhor cineasta da sua geração (com licença do Terrence Malick). E é certo que o filme contém elementos do melhor Scorsese: o retrato da violência mafiosa, a tensão que mantém ao espectador colado ao assento durante as duas horas e meia que dura a película e parte das obsessões éticas e religiosas do director. Porém, Infiltrados não aporta nada novo à filmografia de Scorsese, nem aos seus admiradores. A série consecutiva de finais que ocupa a última meia hora da fita podia ser mais simples, menos efectista e menos dependente do violento original japonês no que se baseia a história. O que pode ser justificável num filme de acção que resposta à lógica de que a maior espectacularidade e "retorcimento" da trama; maior resposta popular em bilheteira, não o é num filme assinado por um cineasta com maiores pretensões.

Outra característica preocupante dum Scorsese cuja última película de entidade remonta-se a 1990 (Um dos nossos / Goodfellas), é a sua progressiva dependência do star-system e do sistema de produção espectacular. Os repartos impressionantes (e os gastos em cenografias faustosas) servem para ocultar num primeiro momento a falta de compromisso do director com as histórias que apresenta, mas acabam por se converter em elementos a favor da acusação.

O caso de Woody Allen é, se calhar, ainda mais claro. Desde há muitos anos, Allen tem oferecido ao seu público de jeito quase alternativo, um filme bom (em algum caso até muito bom) e um filme não tão bom (se não decididamente medíocre). E o manhatanita repete nesta ocasião essa tendência com Scoop, filme claramente menor comparado com o antecedente Match Point. O que em Match Point era compromisso com uma história plena de situações morais que reflectem preocupações vitais do director (de facto, era a segunda vez que Allen usava a história do assassino impune trás Delitos e faltas / Crimes & Misdemeanors, 1989), aqui é puro divertimento carente de convicção, e que deixa a impressão de ser um filme feito simplesmente porque, como diz o próprio Allen nas entrevistas promocionais, a Johansson e mais o director de fotografia estavam disponíveis.

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domingo, junho 18, 2006

Eu também quero destruir o mundo!

Quando um passa a infância e adolescência a ler banda desenhada de super-heróis, conhece um bom número de super-vilões com as motivações mais estranhas para dominar e/ou aniquilar o mundo. A vida descobre-nos depois que os vilões reais são menos histriónicos (algum deles) e conformam-se com menos – dominar um pequeno país, encher-se os petos, tirar satisfação egocêntrica do exercício do poder... essas coisas.


Marvin campaign

Os vilões da banda desenhada sempre me foram simpáticos. Nunca ganhavam, e as suas acções nunca tinham consequências irreparáveis. Porém, nenhum deles logrou jamais que eu percebesse as suas rações tão bem como Marvin o Marciano. Ele não tinha ânsias de poder. Também não era um psicopata qualquer. O seu problema é que ele vive em Marte, e a Terra, sempre no meio como a quinta-feira, impede-lhe ver à sua namorada que vive em Vénus. Assim que Marvin tem de destruir este molesto planeta. Alguém tem uma ração melhor? Às vezes um quase deseja que ele conseguira...

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segunda-feira, maio 15, 2006

Os perigos de jogar com a verdade

A pesar de certa febre da que já falei, as velhas paixões seguem a perseguir-me. Compro Desire (1976) e interesso-me pelo caso de Rubin "Hurricane" Carter. Vejo o filme de Norman Jewison, no que Denzel Washington interpreta Carter. O filme é sentimental e apológetico; um tanto maniqueu e o que os sajões chamam "self-righteous", longe da fúria da potente acusação dylaniana. Tenho curiosidade, assim que busco em internet e vários matizes de gris aparecem entre o branco e o preto. E eu pergunto-me, onde é que fica a verdade?

Há muitas semelhanças com o caso de O.J. Simpson. Seguro que o recordo de Carter estava presente e influiu no juízo do ex-jogador de futebol americano. Claro que O.J. conseguiu o que Carter não pôde: convencer aos membros do júri de que o estavam a julgar por asasinato por ser preto. Lembro que, pelo que diziam os jornais na época, as provas contra O.J. Simpson semelhavam mais claras. Por pequenas que sejam, há possibilidades de que ambos sejam culpáveis e de que ambos jogaram a vaza do racismo para evitar a cadeia.

Em momentos como este, quero creer na existência do karma.

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sexta-feira, março 17, 2006

Drew Barrymore (perversões confessáveis 1)

Espero que niguém me chame machista se aproveito o achádego destas fotos para Playboy em 1995, para expresar cá a minha admiração (total) pela Drew Barrymore. A beleza não tem género (e aliás, a gente não é de pedra, pois não?).




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quinta-feira, março 02, 2006

Dreyer, Bresson e Tarkovski em DVD

Após a feliz edição dum punhado de filmes do dinamarquês Carl T. Dreyer (Ordet (A palavra), Gertrud, Dies Irae, O amo da casa), agora resulta que saem ao mercado cinco títulos do russo Andrei Tarkovsky. Por ordem de estreia em cinema são: A infância de Ivão, Andrei Rublev, Solaris, Espelho e Stalker.
Faz-se difícil para mim dizer algo destes cineastas, não muito conhecidos em Espanha mas absolutamente imprescindíveis na história do cinema. Das teorias cinematográficas de Dreyer evoluiram vários aspectos do trabalho de Ingmar Bergman e de Robert Bresson, de quem à vez partiram os cineastas da Nouvelle Vague. Esta linha de influência chega a actualidade através das propostas de gente como Lars Von Triers ou Aki Kaurismäki. A admiração que sentem directores como Bergman ou Erice pela obra de Tarkovsky é assim mesmo bem conhecida.

Com todo, ainda deveriam aparecer coisas de ambos autores. Sacrifício ou Nostalgia no caso de Tarkovsky; A paixão de Joana de Arco ou Vampyr no caso de Dreyer. Haverá que dar tempo aos editores e confiar (não quero provocar invejas, mas eu tenho essas películas desde há tempo graças a caríssimas edições americanas e inglesas). Em quanto a Bresson, a Fnac já sacou à venda O dinheiro, Pickpocket, O processo a Joana de Arco. Ficam pendentes Um condenado a morte fugiu, Diário dum cura de campanha, Mouchette e Au hasard Balthazar. Paciência!

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segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Godard

Por que não há mais películas como esta? Este será o meu Ano Godard.





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terça-feira, fevereiro 14, 2006

Tenda de DVDs de importação em Madrid

Já vos dera esta direcção? Antes aceitavam pagos à volta dos correios; agora semelha que as coisas não lhes vão bem, porque estão a saldar, já não abrem pela manhã e pedem um sinal para encomendas, mas paga a pena vistá-los.

Agradecia se alguém pudesse dar indicações de outra loja similar...

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segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Relâmpago sobre água

Em Relâmpago sobre água, Wim Wenders e Nicholas Ray elaboram um discurso estarrecedor sobre a vida, a morte, a velhice, a enfermidade e a decadência física. Wenders reflecte sobre a morte dum ser próximo e o seu ofício de cineasta rodando os últimos momentos da vida dum Nicholas Ray que se aferra desesperadamente à sua última película porque sabe que esta equivalerá à sua reabilitação ante ele próprio, e que se converterá numa ração para prolongar a luta um pouco mais.

A película identifica o processo de elaboração duma película com o passo dos últimos momentos da vida do ser humano. O caos, o medo, a perplexidade ante a morte, a falta de controlo sobre os acontecimentos e a dor estão presentes na obra, que é toma forma dum work in progress. O mesmo médio cinematográfico está presente de maneira constante. Repetem-se tomas, fala-se em como se vai desarrolhando o guião, misturam-se formatos. A câmara, convertida numa personagem mais, regista todo o processo sublimando-o e transmutando-o em Arte, na expressão mais alta do espírito humano.

Wenders adverte que tudo tem um reverso escuro: existe a tentação de aproveitar-se do sofrimento alheio, de esquecer-se de que quem está diante é uma pessoa, que sofre e a quem quer. E, por suposto, também está presente o tema da inexorabilidade do passo do tempo, do seu esgotamento, e a sensação de que tudo o que as câmaras podam registar não abunda para contê-lo. Como dizia Cortázar em Instrucciones para dar cuerda al reloj (Historias de Cronopios y Famas): "allá en el fondo está la muerte". E então saltam as palavras incríveis que deixam a um sem alento e com um nó na gorja do que já nunca poderá livrar-se: “The closer I get to my ending, the closer I’m getting to re-writing my beginning. And certainly, by the end... by the last page, the climax has re-conditioned the opening; and the opening usually changes.” Quem as pronuncia é um Nicholas Ray bigger than life, que já não é senão uma sombra física do que fora, e que está a dar a sua derradeira lição sobre cinema ou, o que é o mesmo, sobre a vida.

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domingo, fevereiro 12, 2006

Boa noite, e boa sorte


Preferimos que nos apresentem a verdade directamente ou preferimo-la semi-oculta trás de histórias, literatura, metáforas, parábolas ou alegorias? É melhor que nos digam: “isto está bem” ou que nos mostrem como funciona para vê-lo por nós mesmos?

Ontem, caminho do cinema limos esta cita do diário de Hugo Ball: Kant... este é o inimigo jurado ao que tudo se remonta. Com a sua teoria do conhecimento ele pôs todos os objectos do mundo visível nas mãos da ração e do poder. Elevou a Ração de Estado prussiana ao nível da ração comum e ao imperativo categórico ao que tudo tem que se submeter. A sua máxima suprema diz assim: a ração há-de ser aceite a priori; é algo inconmovível. É o quartel da sua potência metafísica.”

Mais tarde, já nos Cinemas Verdi, encontrámos o anúncio dum documental intitulado: Das Goebbels-Experiment e vimos Good Night, And Good Luck, na que George Clooney supera de jeito hábil a pergunta que nos fazemos ao começar este comentário. E fá-lo jogando com ambas possibilidades: por um lado, a fita supõe um comentário indirecto sobre a realidade americana actual. Por outro lado, a eleição de Murrow e a sua campanha anti-mccarthista equivale a um comentário direito sobre a transmissão da verdade e a defesa dos valores democráticos. No tempo limitado que durava o programa See It Now, Murrow não podia andar-se com rodeios, e o jogo que decidiu jogar era tão arriscado que não podia permitir-se malas interpretações.

Valendo-se do relato da oposição do grupo de jornalistas liderados por Ed Murrow contra as tácticas do senador Joe McCarthy há cinquenta anos, Clooney e o seu co-guionista Grant Heslov realizam uma crítica da manipulação e a mentira claramente dirigida contra a administração Bush. É inevitável ouvir as palavras de Eisenhower case ao fim da película ou uma das últimas alegações de vítimas e não pensar nos informes sobre a existência de armas químicas e nucleares no Iraque ou na manipulação do medo dos cidadãos a serem outra volta vítimas dum ataque terrorista para recortar liberdades fundamentais e manter a nação num estado de alerta paranóica constante. Ao igual que Murrow foi acusado de comunista e antipatriota, Clooney tem sido acusado de traidor ao seu país por criticar a guerra de Iraque e outras actuações da administração Bush.

Os espanhóis temos também algumas lições que apreender desta película. Nosso passado recente e o nosso presente não estão isentos de sinistras mentiras governamentais: 11-M, Prestige, caso Ercros, subvenções comunitárias ao cultivo do linho, radicalização dum enfrentamento entre uns supostos "eles" e uns supostos "nós"... As nossas cadeias de televisão também poderiam prestar ouvidos às palavras do discurso de Murrow que abrem e fecham o filme.

O filme é lento, deixa que as personagens falem em liberdade, mas a tensão e a sensação de perigo, de possibilidade de derrota mantêm em suspenso ao espectador interessado. Claro que só a quem estiver interessado. Com um negócio cinematográfico que ainda não conseguiu ensinar aos espectadores a distinguir entre o entretenimento puro sem pretensões artísticas nem de qualidade e o verdadeiro arte dotado de conteúdo estético e moral, este tipo de películas está condenado a receber comentários como os que se ouviam de passada ao terminar a sessão, e que eram do cariz de “¡qué tostón!”, “es muy lenta” ou “vaya rollo”. No fim, um fica com a impressão de que declarações honestas como a que pretendia George Clooney, ou a imparcialidade de Murrow, que deixava que as palavras do próprio McCarthy revelaram a sua natureza perversa perante a opinião pública, não são apreciadas por um público que demanda violência gratuita, acção, romance, final feliz e castigo aos maus menos de duas horas. Por isso, ainda que a película mereceria melhor sorte, não parece uma competidora perigosa para Brokeback Mountain nos Óscar.


Música para hoje (8): Exhuming McCarthy -- R.E.M. (Document, 1987).

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sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Crash, de Paul Haggis

Em Crash, Paul Haggis apresenta as vidas cruzadas dum grupo de pessoas no inferno racial de Los Angeles, cidade herdeira directa das tensões mais cruas do Deep South americano, agravadas pela entrada em conflito duma maior variedade étnica.

Haggis sabe o que quer dizer e di-lo claramente, se calhar, claro de mais. A mensagem moral é clara: a tensão gera violência que gera ódio que gera tensão que gera violência... Os culpáveis são -somos- todos e quem se creia fora da cadeia está errado, como não tardamos em comprovar seguindo as histórias paralelas das personagens de Matt Dillon e o seu jovem companheiro (Ryan Phillippe).

O problema é que a fita não deixa lugar a ou conclusões além das propostas pelo director, quem joga a deus omnisciente, manipulando as emoções do espectador para levá-lo exactamente onde ele quer. Quando alguém faz isso com emoções tão fortes achega-se muito ao autoritarismo, erro no que já incorrera Scorsese no Cabo do medo.

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Monthy Python, a máfia, a SGAE, Linux e Bruxelas

Quando penso na SGAE e na eficácia dos seus métodos lembro um sketch dos Monty Python no que um grupo de mafiosi trata de fazer extorsão o exército britânico mediante a clássica oferta de “protecção”. Um genial Graham Chapman interpreta a um descolocado coronel, a quem Terry Jones e Michael Palin, com trajes pretas às riscas brancas, sombreiro e de palito na boca, explicam:

Sergeant: Two civilian gentlemen to see you ... sir!
Colonel: Show them in please, sergeant.
Sergeant: Mr Dino Vercotti and Mr Luigi Vercotti. The Vercotti brothers enter. They wear Mafia suits and dark glasses.
Dino:Good morning, colonel.
Colonel : Good morning gentlemen. Now what can I do for you.
Luigi (looking round office casually): You've ... you've got a nice army base here, colonel.
Colonel: Yes.
Luigi: We wouldn't want anything to happen to it.
Colonel: What?
Dino: No, what my brother means is it would be a shame if... (he knocks something off mantel)
Colonel: Oh.
Dino: Oh sorry, colonel.
Colonel: Well don't worry about that. But please do sit down.
Luigi: No, we prefer to stand, thank you, colonel.
Colonel :All right. All right. But what do you want?
Dino: What do we want, ha ha ha.
Luigi: Ha ha ha, very good, colonel.
Dino: The colonel's a joker, Luigi.
Luigi: Explain it to the colonel, Dino.
Dino: How many tanks you got, colonel?
Colonel: About five hundred altogether.
Luigi: Five hundred! Hey?
Dino: You ought to be careful, colonel.
Colonel: We are careful, extremely careful.
Dino: 'Cos things break, don't they?
Colonel: Break?
Luigi:Well everything breaks, don't it colonel. (he breaks something on desk) Oh dear.
Dino:Oh see my brother's clumsy colonel, and when he gets unhappy he breaks things. Like say, he don't feel the army's playing fair by him, he may start breaking things, colonel.
Colonel:What is all this about?
Luigi: How many men you got here, colonel?
Colonel: Oh, er ... seven thousand infantry, six hundred artillery, and er, two divisions of paratroops.
Luigi: Paratroops, Dino.
Dino: Be a shame if someone was to set fire to them.
Colonel: Set fire to them?
Luigi: Fires happen, colonel.
Dino: Things burn.
Colonel: Look, what is all this about?
Dino: My brother and I have got a little proposition for you colonel.
Luigi: Could save you a lot of bother.
Dino: I mean you're doing all right here aren't you, colonel.
Luigi: Well suppose some of your tanks was to get broken and troops started getting lost, er, fights started breaking out during general inspection, like.
Dino: It wouldn't be good for business would it, colonel?
Colonel: Are you threatening me?
Dino: Oh, no, no, no.
Luigi: Whatever made you think that, colonel?
Dino: The colonel doesn't think we're nice people, Luigi.
Luigi: We're your buddies, colonel.
Dino: We want to look after you.
Colonel: Look after me?
Luigi: We can guarantee you that not a single armoured division will get done over for fifteen bob a week.
Colonel: No, no, no.
Luigi: Twelve and six.
Colonel: No, no, no.
Luigi: Eight and six ... five bob...

Os métodos da SGAE são os dos mafiosos italo-americanos das películas de Coppola: usam da força para tratar de controlar um mercado do que tirar talhada. Nem mais nem menos. O dinheiro é uma obsessão para eles e por isso o simples conceito de software livre resulta-lhes tão aberrante como a descarga ilegal de música ou películas da rede. Como os fanáticos, já não distinguem branco de preto. Menos mal que todavia queda alguém disposto a parar-lhes os pés.


Nota: o sketch dos Monty Python pertence ao episódio 8 da primeira tempada, intitulado Full Frontal Nudity.

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sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Fazendo uso do cartão de sócio Fnac

Decidi que como, apesar de mim próprio, estava a gastar muito dinheiro na Fnac, solicitaria o seu cartão de fidelização. Como agasalho de bem-vinda, oferecem um 10% de desconto em cds e dvds, um 4x3 em livros e um 5% de desconto em fotografia, electrónica, telefonia e informática.

Como não ando muito bem de massa, decidi concentrar os meus esforços em películas (os livros que quero são muito caros e tenho muita coisa atrasada que ler). Após largos passeios e deliberações decidi-me por:

* Elevador para o cadafalso, de Louis Malle
* O enigma de Gaspar Hauser, de Werner Herzog
* O vento levar-nos-á, mais
* Através das oliveiras, de Abbas Kiarostami
* O ladrão de Bagdade, de Powell, Mercer & Whelan
* Akira, de Katsuhiro Otomo

Já comentaremos...

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terça-feira, janeiro 31, 2006

Em torno de Brokeback Mountain


Não estava muito seguro de querer ver Brokeback Mountain. Desconfio das promoções exageradas, das películas que camuflam publicidade nos telejornais, das obras que ocultam os seus defeitos sob argumentos politicamente correctos (o que não é mais que uma outra forma de fascismo, Michael Stipe dixit). Também não confio em prémios, nas películas que arrasam tudo: Globos de ouro, Óscar, Prémios da crítica... Prefiro guiar-me por um critério duplo: as opiniões de gente com a que tenho coincidido antes e uma intuição muito trabalhada sobre a base das experiências cinematográficas anteriores. Isto faz com que, por exemplo, vá ver cada nova película de Woody Allen embora só um feixe dos seus trabalhos nos últimos vinte anos me satisfaçam plenamente (Hannah & Her Sisters; Another Woman; Crimes & Misdemeanors; Manhattan Mistery Murder; Husbands & Wives; e Deconstructing Harry). Também faz com que, por exemplo, as palavras “Jim Carrey” provoquem um cepticismo dificilmente salvável, motivo pelo que tive de recuperar Eternal Sunshine Of The Spotless Mind por insistência dum amigo ao que nunca estarei dabondo agradecido. Outras das minhas insuperáveis fobias incluem Tom Cruise, Spielberg, os irmãos Trueba, três quartos do cinema oriental que nos chega, o mainstream hollywoodense e o stablishment espanhol... Há quem diga que tenho os prejuízos a trabalhar a pleno rendimento; eu prefiro considerá-lo instinto e poucas vezes me engana. O cine é algo muito sério para perder o tempo com subprodutos.

Ang Lee é autor de várias fitas apreciáveis, como Ride With The Devil e Crouching Tiger, Hidden Dragon, mas o melhor da sua filmografia são sem dúvida O banquete de boda e Comer, beber, amar. Foi responsável também duma película que, de sermos benévolos, diríamos que supõe uma queda de nível, mas que, como somos como somos, diremos que é absolutamente olvidável: Hulk. Esta, maldita seja, é a última até Brokeback Mountain o que há que reconhecer que contava como outro motivo de desconfiança. Mas Brokeback Mountain está bem, de facto está muito bem. O filme conta uma nova versão duma história já contada muitas vezes. Os actores e actrizes estão excelentes e a direcção permanece sempre atenta aos pontos fortes da história, sem demonstrar nunca impaciência, nem cair na auto-complacência ou o sensacionalismo.


Lee observa as personagens destruírem-se a si memos pouco a pouco, por não se permitirem seguir os ditados dos seus corações. Ennis aferra-se a uma vida vazia, com um matrimónio fracassado, ao que segue uma relação condenada de princípio, e um trabalho que não permite que saia da miséria e uma ingesta excessiva de álcool. Jack está preso num matrimónio sem sentimentos, que o empequenece ao tempo que aumenta a sua frustração sexual. Os encontros entre ambos reduzem-se a um par de dias nos meses de inverno, estação que reflecte e, paradoxalmente, contrasta com a temperatura sentimental das personagens. De igual jeito, a fria beleza das montanhas também serve de contraste à claustrofóbica sordidez das casas, dos bares e dos povos onde os protagonistas deixam passar as suas vidas até o momento do próximo encontro.

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sexta-feira, janeiro 27, 2006

Duas coisas sobre cine

Interessante notícia sobre o cine espanhol. Eu não faço parte desse aumento de interesse já que não vi nenhuma das fitas citadas: Torrente 3, O reino dos céus, El penalti más largo del mundo, 7 vírgenes, Sáhara, Tapas, Habana Blues, Camarón, Frágiles, Los dos lados de la cama e Princesas. Como comentei anteriormente, verei 7 vírgenes e Princesas em breve, mas só tenho ganas de ver a de León de Aranoa.

Deixando aparte que considerar O reino dos céus como uma película espanhola é passar-se de optimista e falsear um pouco os dados, a mesma ministra dá pistas do verdadeiro alcance dos feitos ao dizer que o dvd tem muito a ver com a queda de espectadores do cinema americano. As bilheteiras ingressam menos por cinema americano, mas este não perde realmente espectadores. Não nos enganemos: a gente prefere-o por escapismo e é só que agora semelha preferir vê-lo na casa. E é que o cinema espanhol é aburrido, repetitivo, moralista e carente de imaginação. As excepções, que as há e muito honrosas, são dessas que confirmam a regra.

O que sim acho uma notícia espectacular é a edição em dvd de O ladrão de Bagdade de Ludwig Mercer e o imenso Michael Powell, autor doutras jóias já disponíveis como Narcisso preto, Coronel Blimp, Sei aonde vou, As sapatilhas vermelhas, Os Invasores e A batalha do Rio da Prata. Tenho já uma cópia inglesa de A vida e morte, assim que só fica aguardar por uma edição acessível de O fotógrafo do pânico.

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terça-feira, janeiro 17, 2006

Golden Globes, Oscar, Goyas e demais família

Um ano mais achega-se a entrega dos Óscar e a maquinaria promocional espectacular começa trabalhar. Já temos todos os prémios-entremez a preparar o caminho do prato principal duma ementa cada vez mais "chusca", previsível e devassada.

Já se ouvem por todas partes essas expressões tão reveladoras de encefalograma plano como "la antesala de los Óscar"; "la quiniela de los Óscar"; ou "las nominaciones" (ainda, depois de tanto tempo e tanto livro de estilo, muitos não foram capazes de apreender que, em espanhol, "nominar" significa dar nome, baptizar, e não seleccionar).

E a gente pergunta-se, no meio de tanta mediocridade, onde é que está o cinema? Como desagravo nós passamos a tarde de ontem a ver El sol del membrillo e os seus maravilhosos conteúdos extras. Anteontem vimos Fitzcarraldo e já temos preparada À bout de souffle. Não passarão!

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terça-feira, novembro 29, 2005

Bases de dados de cine em internet

Existe uma quantidade imensa de sites dedicadas ao cinema na rede. Algumas tratam temas específicos; outras actuam como revistas, com críticas, novidades, imagens e promoções e com apresentação e conteúdos que vão do profissional especializado até o amadorismo más ingénuo. É difícil fazer recomendações, e por tanto, só falaremos dum tipo muito concreto de sites de cinema: as que se oferecem como bases de dados completas.

A primeira delas tem de ser, por força, a
Internet Movie Database, ou Imdb. Possivelmente, a base de dados de cinema mais grande que existe em internet. Facilita dados completos sobre quase qualquer filme por muito antigo ou esquisito que pudera parecer. Além disso, favorece a participação dos utentes registados mediante a publicação de críticas, discussões e votações dos filmes. Qualquer utente pode aceder as votações das fitas que viu, e deste jeito, o site pode usar-se como base de dados pessoal com grande proveito. Outro atractivo de Imdb consiste em poder averiguar se o filme que nos interessa está disponível à venda em Estados Unidos o Reino Unido, Canadá ou Alemanha (em VHS ou DVD e com a possibilidade de aceder a sites de venda directa).

Menos impressionante, embora seja igualmente útil, é a All Movie Guide, com sites irmãs dedicadas a música e aos videojogos. Para nós, os colaboradores deste site adoecem duma mentalidade excessivamente ianque, o que supõe que uma boa quantidade de prejuízos pesam, para bem e para mal, sobre os comentários de qualquer película não hollywoodiense (veja-se, por exemplo, a crítica que fazem de Arrebato, do Iván Zulueta). Se calhar, isto pode ser devido a que os promotores não foram capazes de encontrar críticos á altura dos que colaboram na All Music Guide. Seja como for, o melhor deste site é sem dúvida a rapidez com a que resolvem o dilema de se vale a pena ou não dedicar o nosso tempo a ver determinadas películas, mediante o sistema de pontuações oferecido ao visitante (o AMG rate). Também inclui indicação de disponibilidade das películas em formato DVD com enlace a sites de venda directa.

Por último, Film Affinity é a menos completa das três bases de dados. As filmografias que oferece este site estão em geral muito incompletas e só a destacaríamos pelo facto de oferecer os títulos das estreias em espanhol, de não ser por uma curiosa prestação: ao votar as películas como utente registado, um programa informático calcula o grau de compatibilidade com outros utentes e permite aceder às votações daqueles com os que existe maior grau de afinidade para comprovar as suas preferências cinéfilas e orientarmo-nos em futuros visionados. Também inclui enlaces de venda que facilitam o saber se o filme que nos interessa está publicado em Espanha.

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