domingo, fevereiro 12, 2006

Boa noite, e boa sorte


Preferimos que nos apresentem a verdade directamente ou preferimo-la semi-oculta trás de histórias, literatura, metáforas, parábolas ou alegorias? É melhor que nos digam: “isto está bem” ou que nos mostrem como funciona para vê-lo por nós mesmos?

Ontem, caminho do cinema limos esta cita do diário de Hugo Ball: Kant... este é o inimigo jurado ao que tudo se remonta. Com a sua teoria do conhecimento ele pôs todos os objectos do mundo visível nas mãos da ração e do poder. Elevou a Ração de Estado prussiana ao nível da ração comum e ao imperativo categórico ao que tudo tem que se submeter. A sua máxima suprema diz assim: a ração há-de ser aceite a priori; é algo inconmovível. É o quartel da sua potência metafísica.”

Mais tarde, já nos Cinemas Verdi, encontrámos o anúncio dum documental intitulado: Das Goebbels-Experiment e vimos Good Night, And Good Luck, na que George Clooney supera de jeito hábil a pergunta que nos fazemos ao começar este comentário. E fá-lo jogando com ambas possibilidades: por um lado, a fita supõe um comentário indirecto sobre a realidade americana actual. Por outro lado, a eleição de Murrow e a sua campanha anti-mccarthista equivale a um comentário direito sobre a transmissão da verdade e a defesa dos valores democráticos. No tempo limitado que durava o programa See It Now, Murrow não podia andar-se com rodeios, e o jogo que decidiu jogar era tão arriscado que não podia permitir-se malas interpretações.

Valendo-se do relato da oposição do grupo de jornalistas liderados por Ed Murrow contra as tácticas do senador Joe McCarthy há cinquenta anos, Clooney e o seu co-guionista Grant Heslov realizam uma crítica da manipulação e a mentira claramente dirigida contra a administração Bush. É inevitável ouvir as palavras de Eisenhower case ao fim da película ou uma das últimas alegações de vítimas e não pensar nos informes sobre a existência de armas químicas e nucleares no Iraque ou na manipulação do medo dos cidadãos a serem outra volta vítimas dum ataque terrorista para recortar liberdades fundamentais e manter a nação num estado de alerta paranóica constante. Ao igual que Murrow foi acusado de comunista e antipatriota, Clooney tem sido acusado de traidor ao seu país por criticar a guerra de Iraque e outras actuações da administração Bush.

Os espanhóis temos também algumas lições que apreender desta película. Nosso passado recente e o nosso presente não estão isentos de sinistras mentiras governamentais: 11-M, Prestige, caso Ercros, subvenções comunitárias ao cultivo do linho, radicalização dum enfrentamento entre uns supostos "eles" e uns supostos "nós"... As nossas cadeias de televisão também poderiam prestar ouvidos às palavras do discurso de Murrow que abrem e fecham o filme.

O filme é lento, deixa que as personagens falem em liberdade, mas a tensão e a sensação de perigo, de possibilidade de derrota mantêm em suspenso ao espectador interessado. Claro que só a quem estiver interessado. Com um negócio cinematográfico que ainda não conseguiu ensinar aos espectadores a distinguir entre o entretenimento puro sem pretensões artísticas nem de qualidade e o verdadeiro arte dotado de conteúdo estético e moral, este tipo de películas está condenado a receber comentários como os que se ouviam de passada ao terminar a sessão, e que eram do cariz de “¡qué tostón!”, “es muy lenta” ou “vaya rollo”. No fim, um fica com a impressão de que declarações honestas como a que pretendia George Clooney, ou a imparcialidade de Murrow, que deixava que as palavras do próprio McCarthy revelaram a sua natureza perversa perante a opinião pública, não são apreciadas por um público que demanda violência gratuita, acção, romance, final feliz e castigo aos maus menos de duas horas. Por isso, ainda que a película mereceria melhor sorte, não parece uma competidora perigosa para Brokeback Mountain nos Óscar.


Música para hoje (8): Exhuming McCarthy -- R.E.M. (Document, 1987).

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