quarta-feira, novembro 22, 2006

O último de Allen & Scorsese

Já não há quem negue a Martin Scorsese nem a Woody Allen o status de clássicos modernos. As suas filmografias estão cheias de grandes títulos e os seus estilos criaram escola. Mas é certo também que já há anos que a sua trajectória pode ser qualificada, pelo menos, de errática. As suas últimas fitas são um claro exemplo: Allen volve entregar um filme menor, feito como sem vontade; e Scorsese parece recuperar algo do seu melhor cinema, mas só algo. Vejamos isto tudo com mais calma.


A crítica é quase unânime à hora de louvar Infiltrados (The Departed), que semelha o retorno de Scorsese ao tipo de histórias que o fizeram o melhor cineasta da sua geração (com licença do Terrence Malick). E é certo que o filme contém elementos do melhor Scorsese: o retrato da violência mafiosa, a tensão que mantém ao espectador colado ao assento durante as duas horas e meia que dura a película e parte das obsessões éticas e religiosas do director. Porém, Infiltrados não aporta nada novo à filmografia de Scorsese, nem aos seus admiradores. A série consecutiva de finais que ocupa a última meia hora da fita podia ser mais simples, menos efectista e menos dependente do violento original japonês no que se baseia a história. O que pode ser justificável num filme de acção que resposta à lógica de que a maior espectacularidade e "retorcimento" da trama; maior resposta popular em bilheteira, não o é num filme assinado por um cineasta com maiores pretensões.

Outra característica preocupante dum Scorsese cuja última película de entidade remonta-se a 1990 (Um dos nossos / Goodfellas), é a sua progressiva dependência do star-system e do sistema de produção espectacular. Os repartos impressionantes (e os gastos em cenografias faustosas) servem para ocultar num primeiro momento a falta de compromisso do director com as histórias que apresenta, mas acabam por se converter em elementos a favor da acusação.

O caso de Woody Allen é, se calhar, ainda mais claro. Desde há muitos anos, Allen tem oferecido ao seu público de jeito quase alternativo, um filme bom (em algum caso até muito bom) e um filme não tão bom (se não decididamente medíocre). E o manhatanita repete nesta ocasião essa tendência com Scoop, filme claramente menor comparado com o antecedente Match Point. O que em Match Point era compromisso com uma história plena de situações morais que reflectem preocupações vitais do director (de facto, era a segunda vez que Allen usava a história do assassino impune trás Delitos e faltas / Crimes & Misdemeanors, 1989), aqui é puro divertimento carente de convicção, e que deixa a impressão de ser um filme feito simplesmente porque, como diz o próprio Allen nas entrevistas promocionais, a Johansson e mais o director de fotografia estavam disponíveis.

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