segunda-feira, maio 29, 2006

O futuro da leitura

Curiosas respostas as que obtive nas composições sobre a perda de hábitos de leitura na sociedade moderna dum grupo de alunos de 1º de Bachillerato. Como “feedback” dei-lhes um artigo de opinião assinado por Joan Garí e publicado no jornal El País do passado Dia do Livro. Nele, o autor comentava as conclusões às que chegava Philip Roth numa recente entrevista. O autor de “A mancha humana” assegurava que nos USA actuais não há mais de 25,000 bons leitores e que num futuro não muito distante, o número de americanos que terão lido uma obra como Ana Karenina será ridículo. Tomando como referência a proporção americana, Garí chega à cifra de dois leitores da obra de Tolstói em Espanha e imagina como seria se os dois vivessem na mesma cidade e coincidissem na rua por casualidade, com o romance baixo o braço a modo de romântico contra-sinal; o que na minha mente relacionou a tétrica fantasia de Garí com o futuro imaginado por Bradbury para o seu romance Farenheit 411. Logo continuava o espanhol o seu artigo defendendo uma definição do que é um “bom leitor” com a que não posso estar de acordo. Para Garí, um bom leitor é aquele que lê quatro ou cinco livros ao mês e, alem disso, livros de qualidade, entendendo como tais aqueles considerados unanimemente como clássicos ou pertencentes ao polémico cânon.

Após entregar e discutir brevemente o artigo nas aulas, pedi uma composição na que os meus alunos deviam reflectir o seu parecer. As conclusões são muito chamativas. Todos sem excepção sabem que ler é um benefício e até podem enumerar sem dúvidas nem atrancos três ou quatro vantagens práticas derivadas da leitura habitual de bons livros. Porém, essas vantagens dão um cheiro assim como a lição bem apreendidas sobre o politicamente correcto. Dizem o que lhes repetimos porque sabem que é o que queremos ouvir-lhes, mas logo reconhecem que não gostam de ler e que o pouco que lêem é por obriga. Apontam à tecnologia (internet, videojogos) e à disponibilidade de novas formas de lecer (cinema, desportos, “botellón”) como os culpáveis da situação, mas não semelham dispostos a corrigir essa tendência no que lhes toca por muito que a condenem.

Quando eu cursava os antigos BUP e COU lia muitíssimo, mas custava-me muito ler o que os meus professores queriam que lera. Na universidade, os cursos que tive de fazer até livrar-me das asignaturas de literatura espanhola, cheias de obras que já lera mil vezes, passaram lentos e quando tive por fim literatura inglesa e americana foi uma liberação. As leituras obrigatórias pareciam-me uma violência intolerável contra a que tinha que rebelar-me. Agora compreendo melhor aos companheiros do departamento de língua espanhola que me dizem que a obriga é necessária porque de não existir os alunos não leriam em absoluto e, que com o tempo, a mesma obriga podia fazer com que algum deles termine por descobrir que, em realidade, gosta da leitura.

Na actualidade, a maioria dos alunos de Bachillerato atranca-se com as asignaturas que exigem uma boa expressão das ideias. Têm problemas de compreensão do que lêem, não são quem de expressar correctamente o que querem dizer, enganam-se com os enunciados de exercícios simples, desconhecem as normas ortográficas básicas e são incapazes de estabelecer relações evidentes entre temas claramente vinculados. Não reconhecem alusões nem jogos de palavras e carecem de cultura para melhorar estes aspectos a meio prazo. O Informe Pisa é claro a este respeito. Um colega de Desenho Técnico contou-me que ele não se importa com como é que os alunos realizam os exercícios, que lhe abonda com que o possam justificar coerentemente, e que nenhum o faz de jeito satisfatório. Os pais declaram-se incapazes de convencer aos filhos de que leiam e um não se sente com forças para dizer-lhes que era algo que tinham que haver feito muito antes.

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